Sexta-feira, Julho 10, 2009

pra se molhar

Era o tempo que permitia
A anistia de se navegar
Jogar bóia à vida
Para a proa não naufragar

A garoa de uma preamar

Era o tempo que invadia
Com delírios a marear
Seus temperos tempestivos
Querendo dela o afogar

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Labirinto

Não se esconda nas minhas palavras
Pois sou madrugada ainda acordada
Cantada feita na hora errada.
Quem é bonito, quem é feio?
No fim todos sentem no peito,
No meio, no recheio, sozinho como é
Como quer ter ódio do futuro
Tão profundo, tão escuro a ir pro fundo
Do raso do medo de se afogar
Ou se molhar pelos versos de quem ama
É sede, é maltratar
È morrer de vontade
Que quero mesmo sendo tarde
Acabar na utopia de amanhecer-me
Na confiança encolhida,
Não da escolhida à presença do que se adianta,
Mas do que se encanta pela vida
Entretida a completar meus vazios
Que já estão cheios do seu cheiro.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Demo-lição

Você desintegrou laços,
Calçou os sapatos,
Deteve meus passos.

Fez buracos no telhado,
Deixou-me descalço,
Pisando nos cacos
Dos seus rascunhos amassados.

Como passo o descompasso?

No meu relógio, o atraso,
Só descrença e descaso,
Do meu falso fracasso.

E eu ainda me faço,
Finjo-me de falso,
Mantendo-te no alto
Bem acima do salto.

A grega

Aqui estão os dias seguintes
O que me finge
Mas não me cinge
Como Exfinge!

recorta e cola

Comemora
Como recorda
Quanto me adora
O que me aflora

Às sete horas
Depois da aurora
Da que fui às forras
Nas farras de agora

Estou fora!
Vê se colabora
E sai da minha cola
Sem mais uma de suas esmolas.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Pela janela

É este meu veneno de inverno
Que venero
Enquanto faço-te pequeno
Pra sobrar mais cobertor

É nesse sonho que te espero
E tempero
As bochechas de calor

Você vai embora
E o que me assombra agora
É a sobra do que não sobrou

Ficou a farfalha, a migalha
A falha
Da parede sem nada
Porque a porta desbotou

Raia

As nuvens bóiam em cor de aposta
Do arco
da lona
do circo
Na mão do palhaço
na cidade
Perdida e estufada em tamanho fascínio
Pela caridade do desmanchar do dia
Num estalo ardente afável
Inflamável
à claridade da alegoria
De afogadas estrelas famintas
Que vão de apelo ao ralo
levando sua tinta
Navegam apenas
as pinceladas com aspereza
de estados raros
Que depois do primeiro raio
Alucinadas
permanecem ilesas
Planetas
aquecidos no esquecimento
Obstante
do exorbitante aglutinador
De orbitas distantes
de sua rotina
Viajantes
da Via Láctea
órfãos de lactante
Pela qual cruza arte ferina
Diferir o frio febril
E o feitiço do feltro negro
Com brilho do fio fino de cabelo
Que nasce
no meio da cabeça
Que a mãe natureza
pariu
E segue firme
e segura até o fim
de cada horizonte
De leste a oeste
Todos os que não têm vestes
Para mergulhar na tristeza
as amarguras
Sutis de uma nuvem negra
Que faz cantiga na hora de dormir
antes do fim da tarde se perder
É difícil, edifício!

Segunda-feira, Junho 08, 2009

No morro

Vento, leva meus beijos!
Perca minhas pobres preces
Perdidas em pecados com fé
Carrega da lembrança minha
O cheiro do amor que me é
Feito um perfume de malmequer

Vento, traga-me brisas!
Refresca a sede que me afoga
Encantos que medita a senhora
Mergulha a vôo alto essa crista
Numa reverência indecisa
Racionada por várias trilhas

Vento, livre-se do seu lugar!
Inflama o que alimenta cada pintura
Pois por ventura sou o seu lar
Tricota cada esquina como labirinto
No meu sonho de infinito
De uma hora chegar lá.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Foragidos do Previsível

Treme a maioria com a teimosia do temor
Do veneno pequeno em que padece o amor
Contra a euforia que sente a gente
E entrementes nos passeia pra onde for
É pé esquerdo que o direito carrega
Que atropela sem demora
O que antes azedou
No calor da enchente feito serpente
O antídoto escapa de forma escassa
Por entre os dentes por onde crava
Uma ilha que peçonha alforria
Em quem se desaba como deságua
E por pouco não se afogou
Amofina a dor dos presos
Dos detentos de corredor
Dos sem-janela, dos sem-espera
De lua cheia e amarela
Já vendida ao trovador
Que a enamora por ser bela
E enquanto ela olha
Ele olha para ela.

Segunda-feira, Maio 04, 2009

Favas Contadas

Como se dobra a esquina
Da estrada que o homem caminha
Feito linha de pipa

Como se cobra de uma porta
Entortar-se à cota
De um futuro sem memória

Como se cala um abajur
Ao silêncio do escuro
Se há medo de sussurros

Como se agarra nuvens em garrafas?